Como lidar com o impacto emocional com o diagnóstico de Alzheimer de um familiar


Buscar informação de qualidade, apoio psicológico e dividir responsabilidades são passos fundamentais para atravessar esse processo


Receber o diagnóstico de Alzheimer de um familiar ou de alguém próximo costuma ser um dos momentos mais difíceis para uma família. O impacto emocional é imediato e profundo — mistura de medo, insegurança, angústia e a consciência de que se trata de uma doença progressiva, sem cura, que exigirá cuidados constantes ao longo do tempo.

Segundo o psicólogo e professor de Psicologia da Estácio, Ronaldo Rangel Cruz, mesmo sendo uma doença bastante conhecida pelo senso comum, o Alzheimer ainda gera muita confusão e sofrimento desnecessário por causa da desinformação. “Existe hoje muito material disponível para estudo e orientação, o que é positivo. Mas também há informações desencontradas ou equivocadas, que acabam assustando ainda mais as famílias”, explica.

Quando a notícia chega, o abalo não atinge apenas o paciente — especialmente se ele ainda estiver em fase de lucidez —, mas toda a estrutura familiar. “A família já sabe que a tendência não é de melhora, e isso gera um impacto imediato e também de médio e longo prazo”, afirma Rangel.

Além das providências práticas, como medicações, organização da rotina e questões financeiras, surge um desafio emocional contínuo. O cotidiano se torna mais complexo, exigindo paciência extrema, resiliência e dedicação constante. “É um cuidado diário, o dia inteiro, pelo resto da vida do paciente. Isso gera desgaste, cansaço e, muitas vezes, a sensação de que é difícil manter aquele equilíbrio inicial”, destaca.

Um dos aspectos mais dolorosos do Alzheimer, segundo o psicólogo, é a sensação de perda gradual. O familiar vai se desconectando do “aqui e agora”, apresenta alterações de memória, comportamento, irritabilidade, agressividade ou cria narrativas que não correspondem à realidade. “Visualmente, emocionalmente, a família percebe que aquela pessoa que conhecia está se perdendo. Do ponto de vista cognitivo, ela realmente está indo”, diz.

No entanto, ele ressalta que isso não significa o fim do vínculo afetivo. “A pessoa que amamos continua viva na nossa memória. Tudo o que ela construiu conosco, os ensinamentos, a história compartilhada, isso permanece em nós”, afirma. Para ele, lidar com a doença passa por preservar esses sentimentos e resgatar o afeto acumulado ao longo da vida.

Outro ponto fundamental é afastar a ideia de culpa. “Ninguém tem culpa da doença, nem o paciente, nem a família”, reforça o professor. O que existe, segundo ele, é um exercício constante de amor, paciência, fé e valorização da dignidade da pessoa adoecida.

Rangel usa uma metáfora para explicar esse processo: “É como se, ao longo da vida saudável, tivéssemos feito uma poupança de carinho, respeito e atenção. É essa poupança emocional que precisamos resgatar agora, quando cuidar dói”.

Quem cuida também precisa ser cuidado
A sobrecarga emocional e física dos cuidadores é um ponto de alerta. Para o psicólogo, é essencial que o cuidador tenha momentos de descanso, folgas, convivência social e atividades que lhe deem prazer. “Isso é fundamental para manter energia e equilíbrio emocional”, explica.

Do ponto de vista psicológico, o acompanhamento profissional é fortemente recomendado. “A terapia ajuda o cuidador a lidar com sentimentos como irritação, impaciência e culpa, além de compreender que comportamentos agressivos ou falas difíceis do paciente não são pessoais, mas sintomas da doença”, afirma.

Além do apoio emocional, o conhecimento técnico sobre o Alzheimer é uma ferramenta poderosa. “Quanto mais a gente conhece a doença, mais entende, mais respeita e mais consegue transformar o jeito de enfrentar esse desafio”, destaca Rangel.

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