Fernando Aidar leva à 16ª Bienal de Curitiba monolito habitado por criaturas híbridas

 



Artista paulistano participa da exposição “Algoritmos do Humano e Tecnologias da Natureza”, em cartaz no Museu Oscar Niemeyer até novembro

Curitiba, junho de 2026 | Durante doze anos, Fernando Aidar dedicou-se ao estudo e à pesquisa ambiental. Mais tarde, migrou para o campo das artes visuais, sem abandonar a investigação científica que moldou sua forma de compreender o mundo. Hoje, doutor em Poéticas Visuais pela ECA-USP, o artista paulistano constrói uma obra singular na cena contemporânea brasileira ao aproximar cerâmica, biologia, arqueologia, tecnologia e ancestralidade.

Essa trajetória encontra uma síntese poderosa em Monolito, trabalho apresentado na 16ª Bienal Internacional de Curitiba - LIMIARES, em exibição na Sala 7 do Museu Oscar Niemeyer (MON). A obra integra a exposição “Algoritmos do Humano e Tecnologias da Natureza”, com curadoria de Adriana Almada e Tereza de Arruda.

À primeira vista, a obra se apresenta como um grande bloco vertical revestido por azulejos cerâmicos. Com aproximadamente 2,10 metros de altura, sua escala se aproxima da dimensão humana e produz uma presença silenciosa, quase enigmática. A superfície frontal remete ao vocabulário formal do minimalismo: um plano geométrico aparentemente austero que interrompe o espaço e impõe uma pergunta antes mesmo de oferecer uma resposta.

Mas a estabilidade é apenas aparente. Os azulejos não são totalmente planos. Pequenas deformações sugerem movimentos internos, como se algo pulsasse sob a superfície. Ao contornar a peça, o visitante encontra outra realidade: criaturas híbridas emergem da face posterior da estrutura. Modeladas em cerâmica esmaltada e finalizadas com crânios de porcelana moldados a partir de um crânio de macaco, elas parecem brotar do monolito como organismos que surgem de um solo fértil.

Algumas dessas figuras ocupam o topo da obra, observando silenciosamente quem passa. O resultado produz um deslocamento perceptivo: aquilo que parecia um objeto geométrico e inerte revela-se um organismo em transformação.

A obra apresenta tensões que permeiam a Bienal. Humano e não humano, natureza e cultura, tecnologia e matéria ancestral coexistem num mesmo corpo escultórico. O monolito, tradicionalmente associado à permanência, à origem e ao mistério, surge aqui como uma construção composta por múltiplas partes, resultado de uma das mais antigas tecnologias desenvolvidas pela humanidade: a cerâmica.

Há também um diálogo com uma longa tradição artística que vai de Constantin Brancusi a Richard Serra, na qual a escultura não representa algo externo, mas atua diretamente sobre a percepção do espectador por meio da escala, do peso, da presença e da ocupação do espaço.

No trabalho de Aidar, contudo, essa herança se apropria de questões contemporâneas. O objeto minimalista passa a conviver com formas orgânicas que evocam evolução, mutação e convivência entre espécies. O monolito deixa de ser apenas um símbolo de permanência para tornar-se um organismo vivo, habitado por forças contraditórias.

A pesquisa artística de Fernando Aidar tem origem nessa observação dos sistemas naturais. Seus trabalhos partem do estudo de seres marinhos, raízes, organismos microscópicos e processos biológicos. A modelagem do barro funciona como uma tentativa de compreender os movimentos da vida e, ao mesmo tempo, dar dinamismo a uma matéria aparentemente estática. "Tento compreender como a vida se organiza e se transforma, mesmo sabendo que traduzir essa complexidade por meio da forma é uma tarefa inevitavelmente incompleta. O que me interessa é justamente essa tentativa", afirma Aidar, que trabalha de seu atelier na Vila Mariana, em São Paulo.. 

Sua formação científica permanece presente em todas as etapas do processo. Há mais de uma década, o artista desenvolve pesquisas sobre esmaltes cerâmicos produzidos a partir de minerais brasileiros não tóxicos, investigando técnicas de alta temperatura que dialogam com tradições milenares da cerâmica chinesa.

Essa pesquisa estabelece também uma ponte com sua própria história familiar. Filho de mãe nascida em Hong Kong e descendente, por parte paterna, de libaneses ligados à ancestralidade fenícia, Aidar encontra na cerâmica um lugar de encontro entre memória, cultura e experimentação contemporânea. "Minha pesquisa sobre esmaltes de alta temperatura dialoga diretamente com a minha ancestralidade. Os esmaltes clássicos chineses me interessam não apenas pela técnica, mas porque me permitem estabelecer uma conversa entre história, território e pertencimento", diz o artista.

SERVIÇO

Fernando Aidar – Monolito
Exposição “Algoritmos do Humano e Tecnologias da Natureza”
Sala 7 do Museu Oscar Niemeyer (MON)

16ª Bienal Internacional de Curitiba LIMIARES
Visitação: até 15 de novembro de 2026

Museu Oscar Niemeyer
Rua Marechal Hermes, 999, Centro Cívico - Curitiba/PR

Ingressos:
R$ 36 (inteira)
R$ 18 (meia-entrada)
Gratuito às quartas-feiras

Comments