Administração ainda é necessária na era da Inteligência Artificial?


Estudo do Google mostra que bons gestores continuam sendo decisivos para o desempenho das equipes e reforça a importância da formação em liderança na era da IA


Em um momento em que a Inteligência Artificial assume tarefas operacionais, automatiza processos e transforma profissões, uma pergunta ganha cada vez mais espaço no ambiente corporativo: a gestão de pessoas ainda é indispensável? Um dos maiores estudos já realizados sobre liderança dentro de uma empresa de tecnologia ajuda a responder essa questão. O Project Oxygen, pesquisa desenvolvida pelo Google para identificar o impacto dos gestores no desempenho das equipes, concluiu que líderes qualificados continuam sendo um dos principais fatores para o sucesso das organizações.

Criado a partir da análise de milhares de avaliações de desempenho, pesquisas internas e indicadores de produtividade, o estudo surgiu justamente para investigar se os gestores eram realmente necessários em empresas altamente técnicas e inovadoras. O resultado contrariou a hipótese inicial: equipes lideradas por bons gestores apresentavam maior produtividade, maior engajamento, mais inovação, melhor retenção de talentos e maior satisfação no trabalho.

Para o consultor de carreira e diretor executivo da ESIC Internacional, Alexandre Weiler, as conclusões do estudo se tornaram ainda mais relevantes diante do avanço da Inteligência Artificial. "A IA pode automatizar processos, organizar informações e apoiar a tomada de decisões, mas continua sendo incapaz de substituir competências essencialmente humanas, como desenvolver pessoas, inspirar equipes, criar confiança e construir uma cultura organizacional saudável. Quanto mais tecnologia as empresas adotam, maior se torna a necessidade de lideranças preparadas para conduzir pessoas", afirma.

O levantamento do Google identificou dez características presentes nos gestores de melhor desempenho. Entre as principais estão:

  • Atuar como mentor e apoiar o desenvolvimento das equipes;

  • Oferecer autonomia aos colaboradores, sem deixar de acompanhar os resultados;

  • Criar um ambiente de segurança psicológica, onde as pessoas possam contribuir sem medo de errar;

  • Comunicar-se de forma clara e manter diálogo constante com o time;

  • Demonstrar interesse pelo desenvolvimento profissional dos colaboradores;

  • Definir estratégias e tomar decisões de forma eficiente;

  • Estimular a colaboração entre diferentes áreas da empresa;

  • Possuir conhecimento técnico suficiente para orientar a equipe quando necessário.

Segundo Weiler, chama atenção o fato de que a maioria dessas competências está muito mais relacionada ao comportamento do que ao conhecimento técnico. "Durante muito tempo se acreditou que os melhores líderes eram aqueles que dominavam profundamente a parte técnica do negócio. Hoje sabemos que isso, sozinho, não basta. O diferencial está na capacidade de desenvolver pessoas, ouvir, comunicar, dar propósito ao trabalho e criar ambientes onde os profissionais consigam entregar seu melhor", explica.

Essa mudança também acompanha a transformação do próprio mercado de trabalho. Com atividades repetitivas sendo cada vez mais executadas por sistemas inteligentes, cresce o valor das chamadas habilidades humanas, ou soft skills, como inteligência emocional, pensamento estratégico, comunicação, negociação e liderança. "Estamos vivendo uma mudança importante no perfil das organizações. O conhecimento técnico continua sendo essencial, mas ele precisa caminhar ao lado das competências comportamentais. É justamente essa combinação que diferencia profissionais preparados para assumir posições de liderança", destaca.

Na avaliação do especialista, desenvolver essas competências exige mais do que experiência prática. É necessário investir continuamente em formação e atualização profissional, especialmente em programas que integrem gestão, estratégia, inovação e visão global dos negócios. "A liderança não nasce pronta. Ela pode e deve ser desenvolvida. Formação de qualidade, contato com diferentes realidades empresariais e acesso às melhores práticas internacionais aceleram esse processo e preparam gestores para tomar decisões em cenários cada vez mais complexos e tecnológicos", conclui Weiler.

 

Comments