Busca por propósito, qualidade de vida e desenvolvimento profissional influencia decisões de carreira e desafia estratégias de retenção das empresas
Durante décadas, a remuneração foi considerada o principal fator para atrair e reter profissionais. Hoje, porém, o cenário é mais complexo. A pesquisa Global Workforce Hopes and Fears Survey, da PwC, revelou que oportunidades de aprendizado, desenvolvimento de carreira e realização profissional estão entre os fatores que mais influenciam decisões de permanência ou mudança de emprego. O levantamento ouviu mais de 56 mil trabalhadores em 50 países.
Ao mesmo tempo, o relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, mostra que apenas 21% dos trabalhadores no mundo se consideram engajados no trabalho. O estudo também aponta que fatores ligados ao bem-estar, reconhecimento profissional e qualidade da liderança têm impacto direto nos índices de satisfação e retenção de talentos.
Para o consultor de carreira e negócios da ESIC Internacional, Alexandre Weiler, os profissionais passaram a avaliar suas carreiras de forma mais ampla do que apenas pelo salário recebido no fim do mês. “A remuneração continua sendo importante, mas deixou de ser o único fator decisivo. Hoje, as pessoas observam se terão oportunidades de crescimento, se o ambiente é saudável, se existe equilíbrio entre vida pessoal e profissional e se o trabalho faz sentido para seus objetivos de longo prazo”, afirma.
Segundo Weiler, a mudança ganhou força nos últimos anos, especialmente após a pandemia, quando muitos profissionais passaram a refletir sobre prioridades pessoais e qualidade de vida. “Houve uma revisão importante de expectativas. Muitos trabalhadores perceberam que não estavam dispostos a permanecer em ambientes que geram desgaste constante, falta de reconhecimento ou ausência de perspectivas de desenvolvimento”, explica.
Essa transformação tem exigido uma revisão das estratégias de retenção adotadas pelas empresas. “Organizações que apostam exclusivamente em aumentos salariais podem encontrar dificuldades para manter talentos. As pessoas buscam também autonomia, oportunidades de aprendizado, lideranças preparadas e uma cultura organizacional alinhada aos seus valores”, diz.
Outro fator que ganhou relevância é a preocupação com a empregabilidade futura. Segundo a pesquisa da PwC, quase metade dos profissionais acredita que as habilidades exigidas para seu trabalho mudarão significativamente nos próximos cinco anos. Para Weiler, esse dado ajuda a explicar o crescente interesse por cursos de especialização, MBAs e programas de atualização profissional. “As mudanças tecnológicas estão acontecendo em uma velocidade muito grande. O profissional entende que precisa continuar aprendendo para permanecer competitivo. Quando a empresa oferece esse ambiente de desenvolvimento, ela cria um vínculo muito mais forte com seus colaboradores”, afirma.
A mudança de comportamento também tem alterado os processos seletivos. Se antes as empresas concentravam a avaliação apenas nos candidatos, hoje os profissionais também investigam a reputação das organizações antes de aceitar uma proposta. “É cada vez mais comum que candidatos pesquisem avaliações da empresa, conversem com funcionários e busquem entender a cultura organizacional. O processo de escolha passou a acontecer dos dois lados”, comenta Weiler.
Para o consultor, as empresas mais bem-sucedidas nos próximos anos serão aquelas capazes de oferecer uma proposta de valor mais completa aos seus profissionais. “Salário continua sendo fundamental, mas a retenção de talentos hoje passa por desenvolvimento, propósito, reconhecimento e qualidade das relações de trabalho. As organizações que entenderem essa mudança terão uma vantagem competitiva importante na atração e permanência de bons profissionais”, conclui.

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