Fazer as compras rotineiras perto de casa e depender cada vez menos do carro para cumprir a agenda diária: o sonho de muita gente – que há pouco mais de uma década ganhou a alcunha de “cidade de 15 minutos” – engajou o mercado imobiliário da capital que é referência nacional em planejamento urbano. Em Curitiba (PR), a “priorização do pedestre”, idealizada na década de 80 pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner, tem influenciado projetos imobiliários que “abraçam” a vizinhança e favorecem a fluidez dos pedestres e ciclistas.
Com embasamentos abertos e fachadas ativas, novos empreendimentos residenciais da capital paranaense têm contribuído com as iniciativas públicas de melhoria da chamada “caminhabilidade”. O conceito, que já é aplicado em outras cidades ao redor do mundo, favorece a perda do protagonismo solitário do carro e o retorno à vida ao ar livre, com calçadas seguras, ciclovias viáveis e espaços acolhedores ao longo dos trajetos.
Na prática, a tendência fez crescer o interesse do consumidor imobiliário em métricas atualmente importantes para o setor, como a “walk score”, que mede a facilidade de realizar atividades cotidianas a pé em um determinado endereço residencial. O índice avalia fatores como a qualidade do passeio, segurança das travessias, arquitetura, sombreamento e mobiliário urbano. Além disso, considera a proximidade e o acesso a serviços essenciais — como supermercados, farmácias, escolas, restaurantes e parques — atribuindo uma nota de 0 a 100.
Curitiba, cidade caminhável
A ideia de cidade policêntrica e favorável aos pedestres não é nova aos curitibanos, que convivem desde os anos 1980 com os eixos estruturais, o sistema trinário na mobilidade e um plano diretor que estimula o adensamento ao longo das principais vias do transporte urbano e a criação de pequenos centros nos bairros. Na capital paranaense, o conceito de caminhabilidade influencia a construção civil desde aquela época, em função do Plano Massa, do ex-prefeito Jaime Lerner, que prevê o embasamento tipo galeria comercial coberta nos prédios das vias dos Eixos Estruturais da cidade, tais como as avenidas Padre Anchieta e República Argentina.
Em um desses eixos estruturais, no bairro Alto da Glória, o que hoje conhecemos como Avenida João Gualberto, até o início do século XX se chamava “Boulevard Dois de Julho”, o caminho arborizado que conectava casarões de alto padrão ao Passeio Público de Curitiba e que inspirou o projeto do “novo boulevard da João Gualberto” no Moní, edifício residencial que será entregue em 2026 pela AGL Incorporadora.
“Fizemos um levantamento do histórico dos casarões e edificações históricas da região para trazer essa atmosfera de volta à via essa. A ideia é que as pessoas se sintam seguras na rua, e isso só é possível se houver pessoas na rua”, explica o arquiteto e urbanista Richard Viana, um dos fundadores do estúdio Urbideias, que assina o projeto do espaço para permanência da vizinhança.
O boulevard do Moní poderá ser usufruído pela população em geral, integrado à fachada ativa, que vai oferecer espaços sombreados de descanso e comércio acessível a todos no andar térreo. “Com boa iluminação e permeabilidade visual, com muros vazados de cobogó que permitem enxergar as pessoas dentro e fora, todos são estimulados a sair a pé”, explica Richard.
Outras soluções urbanas trazidas pelo empreendimento incluem o acesso principal ao empreendimento na esquina, valorizando a vista do edifício e a integração urbana, com bancos voltados para a rua. Além disso, a instalação de um bicicletário público como “gentileza urbana” incentiva a mobilidade sustentável da região como um todo. “Outras soluções trazidas são as áreas verdes que amenizam o desconforto acústico, a rua compartilhada, que permite o uso pelo pedestre e o mobiliário urbano de acordo com as diretrizes do IPPUC, que estimula a permanência no local.”
Fruição pública e ativação da vida
Para o fundador e diretor-executivo da AGL, Luiz Antoniutti, a tendência é termos cada vez mais empreendimentos com fruição pública nesses moldes, prédios mais abertos à população, executados em sintonia com as demandas do poder público. “O tempo da cidade se mede em décadas, e o espírito do nosso tempo é o da gentileza urbana e do bem-estar coletivo”, afirma.
Outros exemplos de ativação da vida na rua recentemente em Curitiba são a Praça da Ucrânia e a Alameda Prudente de Moraes, graças a melhorias trazidas pela administração da cidade e empreendimentos privados no local. “É importante o poder público fomentar isso e mostrar que olha para rua e para a segurança da cidade como um todo”, defende Richard Viana.
O Plano Massa passou por atualizações — a mais recente veio com o decreto 1.005, de 2020. Nos últimos anos, a iniciativa privada, reunindo incorporadores e construtores, trouxe para os projetos de novos empreendimentos uma série de elementos que colaboram para a caminhabilidade e valorização dos entornos.
Antoniutti conta que a Prefeitura de Curitiba tem realizado conversas próximas com os agentes do mercado imobiliário com o intuito de atingir também um centro da cidade mais vívido e denso, com moradia adequada e caminhabilidade. “Ao longo dos anos perdeu-se a densidade habitacional do centro, sendo que é um lugar muito preparado com boa infraestrutura. A ideia é que ele seja mais acessível e continue a atrair gente, o que fornece segurança e muitos outros benefícios.”
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