Metodologia da Wiegrow utiliza experiências reais para fortalecer empatia, escuta profunda, gentileza e presença, competências associadas ao bem-estar e a ambientes de trabalho mais colaborativos
Durante muito tempo, o desenvolvimento de lideranças esteve concentrado em salas de treinamento, apresentações e dinâmicas corporativas. Agora, algumas empresas começam a levar esse aprendizado para fora das organizações, utilizando experiências reais como ferramenta para desenvolver competências humanas essenciais para quem lidera equipes.
A mudança acompanha uma compreensão cada vez maior de que a gentileza não é apenas uma qualidade pessoal, mas um comportamento capaz de influenciar as relações e os resultados das organizações. Um estudo publicado na revista científica Discover Psychology, da Springer Nature, ouviu 1.932 profissionais em duas etapas e concluiu que a gentileza nas relações com líderes, colegas e subordinados está associada à felicidade no trabalho. A percepção de que a empresa é, de forma geral, um lugar gentil apareceu como um dos principais indicadores desse bem-estar.
Os efeitos da ausência de empatia também começam a ser mensurados. O relatório State of Workplace Empathy 2025, da Businessolver, apontou que ambientes percebidos como pouco empáticos apresentam três vezes mais relatos de toxicidade e 1,3 vez mais problemas relacionados à saúde mental. A organização estima ainda que empresas consideradas pouco empáticas possam perder, conjuntamente, US$ 180 bilhões por ano com a rotatividade de profissionais nos Estados Unidos.
Outro levantamento, realizado pela Society for Human Resource Management (SHRM), calcula que os trabalhadores norte-americanos vivenciam ou presenciam 242 milhões de atos de incivilidade diariamente. Segundo a entidade, as consequências desses comportamentos geram perdas estimadas em US$ 2,6 bilhões por dia para as organizações, considerando fatores como redução da produtividade e absenteísmo.
Para a psicóloga e sócia da Wiegrow, Cíntia Suplicy, os números ajudam a afastar a ideia de que gentileza é sinônimo de fragilidade ou falta de cobrança. “Um líder gentil pode ser firme, estabelecer limites, conduzir conversas difíceis e cobrar resultados. A diferença está em fazer isso com respeito, clareza e escuta. Essa postura cria confiança e permite que as pessoas trabalhem com mais segurança e colaboração”, afirma.
Foi com essa proposta que a Wiegrow conduziu uma imersão com líderes da Volk do Brasil pelas ruas de Curitiba. Em vez de exercícios simulados, os participantes foram convidados a vivenciar situações cotidianas por meio de ações de gentileza urbana, como oferecer escuta, distribuir abraços, conversar com desconhecidos e praticar pequenos gestos de cuidado. O objetivo foi desenvolver habilidades como empatia, escuta profunda, gentileza, presença e capacidade de criar conexões genuínas, competências que integram as chamadas Heart Skills.
Segundo Cíntia, esse tipo de aprendizagem ganha força quando as pessoas saem da teoria e vivenciam situações reais. “As Heart Skills não se desenvolvem apenas em apresentações ou treinamentos tradicionais. Elas precisam ser vividas. Quando um líder se coloca diante de uma pessoa desconhecida, sem roteiro e sem respostas prontas, ele aprende a ouvir de verdade, a perceber emoções e a construir relações mais humanas. É exatamente essa capacidade que depois será levada para dentro das equipes.”
Durante a experiência, os líderes foram divididos em diferentes missões. Alguns distribuíram abraços, outros ofereceram balas com mensagens de otimismo, enquanto parte do grupo tinha como desafio conversar e ouvir pessoas dispostas a compartilhar suas histórias. Ao final da atividade, muitos relataram que voltaram da experiência transformados.
Uma das participantes passou alguns minutos conversando com uma senhora que havia acabado de sair de um exame médico. Outro líder foi abordado por um homem em situação de rua que buscava apenas um abraço e alguém disposto a ouvi-lo. Em ambos os casos, os relatos reforçaram uma mesma percepção: muitas vezes, o gesto mais significativo não é o que se oferece materialmente, mas a presença e a atenção dedicadas ao outro.
Para Vanessa Mazzaferro, sócia da Wiegrow, experiências como essa ampliam a compreensão sobre o verdadeiro papel da liderança. “Muitos profissionais acreditam que liderar está relacionado apenas a processos, metas e resultados. Mas a liderança acontece, antes de tudo, nas relações. Quando desenvolvemos empatia, escuta e presença, construímos ambientes mais seguros, colaborativos e capazes de gerar confiança. É isso que buscamos despertar em nossos programas.”
Cíntia acrescenta que esses comportamentos também ajudam a construir a cultura organizacional. “A cultura de uma empresa se revela principalmente na maneira como as pessoas se tratam, especialmente nos momentos de pressão, divergência ou erro. Quando a liderança demonstra empatia, presença e respeito, sinaliza quais comportamentos são aceitos e valorizados pela organização”, explica.
Os impactos da iniciativa também foram percebidos pela Volk do Brasil. Segundo o diretor executivo da empresa, Sérgio Lange de Souza, a atividade provocou reflexões que dificilmente seriam alcançadas em um treinamento convencional. “Foi uma experiência que nos fez desacelerar e enxergar as pessoas de uma forma diferente. Percebemos que pequenos gestos têm o poder de criar conexões profundas e que a escuta, quando acontece de maneira genuína, transforma tanto quem recebe quanto quem oferece. Esse aprendizado certamente será levado para dentro da nossa rotina como líderes.”

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