O baixo índice de informação da população brasileira sobre o uso de fitoterápicos e o reduzido número de prescrições médicas envolvendo esse tipo de medicamento têm travado o potencial do setor, apesar de o Brasil concentrar cerca de 20% da biodiversidade do planeta.
É o que aponta pesquisa inédita encomendada pela Associação Brasileira das Empresas do Setor de Fitoterápicos, Suplementos Alimentares e Promoção da Saúde (Abifisa) por sentir falta de dados sobre o hábito de consumo de fitoterápicos no país, para conhecer a motivação para a compra e compreender a percepção do público sobre esses produtos.
Apesar de 80% dos entrevistados pelo Instituto Opinion Box afirmarem conhecer o termo, apenas 20% conseguem efetivamente diferenciar fitoterápicos de produtos naturais ou suplementos.
A diferença entre eles está no enquadramento regulatório e na finalidade. “Os medicamentos fitoterápicos são aqueles obtidos a partir de matérias-primas ativas vegetais, como extratos, e sua validação ocorre por evidências documentadas, como estudos clínicos e uso tradicional comprovado”, explica Laerte Dall´Agnol, presidente da Abifisa.
Basicamente, os suplementos alimentares não são medicamentos e, portanto, não servem para tratar, prevenir ou curar doenças, segundo informa a própria Anvisa. “Muitos medicamentos seguem fórmulas tradicionais, baseadas no conhecimento de povos originários/indígenas e repassadas por gerações. O longo histórico de uso, documentado tecnicamente, garante a segurança e a efetividade desses medicamentos, conforme prevê a RDC nº 26/2014”, complementa.
Ao responderem sobre a frequência de uso de medicamentos fitoterápicos, apenas 14% dos entrevistados revelam uso frequente. Outros 14% disseram não usar, 11% relataram que já usaram e pararam e 26% afirmaram usar raramente. Além disso, mais da metade (54%) não sabe citar nenhuma marca ou nome de fitoterápico. Mesmo entre os que afirmam usar frequentemente, 45% não lembram marca ou nome.
Para a Abifisa, os índices apontados pela pesquisa de desconhecimento e uso dos fitoterápicos causam preocupação para o setor. “O fato das pessoas confundirem e não conseguirem diferenciar fitoterápicos da utilização de vitaminas, suplementos alimentares e chás realmente é preocupante. Então, temos um grande trabalho pela frente que é o de melhorar a divulgação dos produtos e informar quais são as diferenças para o consumidor. Os dados obtidos na pesquisa vão servir como bússola estratégica para orientar ações de incentivo a toda a cadeia produtiva e ao consumo consciente dos produtos”, afirma a presidente da Abifisa.
Potencial de crescimento no consumo
Se por um lado os dados revelam o baixo nível de conhecimento e de uso dos fitoterápicos, por outro revelam enorme potencial de crescimento deste mercado no país. A maioria dos entrevistados (75%) concorda que os fitos são uma alternativa eficaz e segura. Já 68% confiam na qualidade de produção desses medicamentos no Brasil.
Apenas 3% dos entrevistados afirmam que não utilizariam em nenhuma situação e somente 11% apontam a preferência por medicamentos convencionais. Tais índices indicam que praticamente não há rejeição ao uso de medicamentos fitoterápicos, o que é uma ótima mensagem ao mercado.
Outros dados animadores para o setor: entre os que usam, 40% querem aumentar. Entre os que deixaram de usar, 44% pretendem voltar. Entre os que não usam, 26% desejam começar.
Para a presidente da Abifisa, os números são “uma porta aberta” para o avanço do consumo dos fitoterápicos no país. “Os números da pesquisa representam oportunidades de crescimento. Somente 3% disseram que não usariam de jeito nenhum fitoterápicos. Isso significa que 97% dos brasileiros estão, de alguma forma, receptivos a esses produtos, mas ainda não encontraram a confiança, a informação ou a recomendação adequada para concretizar esse consumo. É uma porta aberta que temos que aproveitar”, diz Dall´Agnol.
Importância da prescrição
A sondagem confirma a relevância da prescrição médica tanto para os que já utilizam, quanto para os potenciais consumidores de medicamentos fitoterápicos. Quase metade dos que já usam os fitos (49%) afirmam que a escolha é orientada por prescrição médica. Além disso, 80% reconhecem que a orientação de um profissional de saúde é indispensável para o uso correto.
Entre os que nunca usaram, 25% apontam justamente a falta de recomendação médica como principal razão. A ausência de prescrição médica é um dos entraves para o aumento no uso de fitoterápicos no país. Isso ocorre, principalmente, por dois fatores: inexistência da Fitoterapia nos currículos das escolas de Medicina (apenas como especialização) e a baixa inserção dos fitoterápicos nos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) e em Recomendações de Uso do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Para motivar o aumento no número de prescrições médicas para fitoterápicos, a Abifisa criou neste ano um evento com foco em prescritores - o Biohealth Conference, que teve a 1ª edição em São Paulo -, e também tem procurado incentivar os médicos a buscar especializações em Fitoterapia. Para tanto, desenvolveu um projeto que concede bolsas de estudo parciais para os profissionais no curso de Fitoterapia Clínica, coordenado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP).
O levantamento também revela que os médicos são apontados por 73% dos entrevistados como fontes confiáveis de informação sobre fitoterápicos, seguidos pelos farmacêuticos com 52%.
Em um dos países mais conectados do mundo, chama atenção o dado que mostra o baixo grau de confiança em influenciadores digitais e criadores de conteúdo para as redes sociais na decisão de uso (10%).
Preços x oferta no SUS
Apesar da pesquisa não apontar o preço como uma barreira no uso de fitoterápicos, os entrevistados confirmam que a ampliação na oferta do Sistema Único de Saúde (SUS) seria determinante.
Os números mostram que 30% dos entrevistados acham os fitoterápicos mais baratos que os medicamentos convencionais, 30% consideram os preços parecidos e 29%, mais caros. A oferta no SUS aumentaria o interesse de usar em 68% dos entrevistados. Entre os que já usam, 73% afirmam que aumentariam o consumo se oferecidos na rede de saúde pública.
A colocação em prática do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBIO), lançado pelo governo federal em abril deste ano, é mais um fator que promete alavancar o setor de fitoterápicos. Entre as metas do PNDBIO estão ampliar a oferta de produtos aos pacientes do SUS e aumentar para ao menos 5% do mercado farmacêutico a presença de fitoterápicos fabricados no país. Hoje, essa fatia é estimada em 0,5%.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde oferta 12 medicamentos fitoterápicos oficiais em âmbito nacional, como babosa, guaco e espinheira-santa. Com o PNDBIO, a intenção é incluir 15 novos fitoterápicos no SUS.
“Ampliar a oferta de fitoterápicos representa oferecer mais alternativas seguras e eficazes para os cidadãos que utilizam o SUS. Também diminui os riscos do uso de medicamentos sem eficiência terapêutica garantida”, comenta Dall´Agnol. Além disso, “como o PNDBio estabelece diretrizes para que os novos fitoterápicos incorporados sejam fabricados no país a partir de Insumos Farmacêuticos Ativos Vegetais (IFAVs) nacionais, a grande e crescente demanda do SUS vai servir para impulsionar e fortalecer a cadeia produtiva interna da bioeconomia”, complementa.
Uso dos fitoterápicos
Os usos mais comuns dos medicamentos fitoterápicos são: alívio de ansiedade e insônia, regulação intestinal e ação expectorante e broncodilatadora. Também são indicados para tratamentos de uso crônico pela menor incidência de efeitos colaterais quando comparados a outros tratamentos.
Mais de 25 milhões de unidades de medicamentos fitoterápicos são vendidas por ano no Brasil, segundo a última publicação do Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, de 2024.
A pesquisa
A pesquisa encomendada pela Abifisa foi realizada no mês de julho pela Opinion Box, empresa especializada em pesquisas de mercado, e ouviu aproximadamente mil pessoas, entre homens e mulheres, com idade a partir dos 18 anos, de diferentes classes sociais, nas cinco regiões do Brasil. A pesquisa tem margem de erro de 3 pontos percentuais para cima ou para baixo.
Sobre a Abifisa
Com 26 anos de trajetória, a Associação Brasileira das Empresas do Setor Fitoterápico, Suplementos Alimentares e Promoção da Saúde (Abifisa) é a principal entidade representativa do setor, atuando na promoção de um ambiente regulatório que alie segurança sanitária, inovação e desenvolvimento econômico sustentável.
Tudo isso alinhado ao propósito da Abifisa: Dar voz e força a um modelo de saúde que valoriza a ciência, o saber tradicional e a riqueza da biodiversidade, promovendo o reconhecimento dos medicamentos fitoterápicos, ingredientes botânicos e suplementos alimentares como caminhos legítimos, seguros e potentes para o cuidado com as pessoas.
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